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A Síndrome de Smurfette e como as mídias moldam a visão do mundo.

Você já ouviu falar da “Síndrome de Smurfette” — também conhecida como “Princípio da Smurfette”? O termo refere-se à prática, comum em histórias — seja em filmes, animações, quadrinhos ou jogos — de incluir apenas uma mulher em um grupo predominantemente masculino, reforçando a sub-representação feminina. Funciona como um: “Olha, tem uma mulher aí, já serve para representar…”

O nome foi criado a partir da personagem Smurfette, do desenho Os Smurfs (baseado nos quadrinhos de 1958 e na animação dos anos 80). O termo surgiu em 7 de abril de 1991, em um artigo da escritora Katha Pollitt para o New York Times, com o mesmo nome.

Katha Pollitt photo by Christina Pabst.

Inspirado na personagem, o conceito foi inicialmente ligado à formação de crianças em idade pré-escolar, onde apenas uma personagem feminina aparece entre os protagonistas — muitas vezes apenas como um símbolo de feminilidade, sem real importância para a trama, ou servindo como desculpa na função de “dama em perigo”. Logo, percebeu-se que o fenômeno se estendia a todas as faixas etárias e mídias.

🎮 Alguns exemplos em diferentes mídias

A Síndrome de Smurfette é facilmente identificável em diversas mídias:

Chun Li – Street Fighter 2 – Capcom – 1991
  • Jogos: Street Fighter II (só Chun-Li como personagem jogável), Fatal Fury 2 (Mai Shiranui — o primeiro jogo não tinha nenhuma mulher), e Left 4 Dead (apenas Zoey no primeiro jogo, e Rochelle no segundo).
  • Animações: A própria Smurfette, Tartarugas Ninja (April O’Neil como única personagem principal — Irma era secundária, e personagens como Mona Lisa apareciam ocasionalmente), Dragon Ball (Bulma, substituída por Lunch durante um período, servindo como desculpa inicial para iniciar a história e depois como um toque “sexy”), SilverHawks, entre muitos outros.
  • Séries: Stranger Things (Eleven como única protagonista feminina no início) e The Big Bang Theory (Penny era a única mulher principal, embora isso tenha mudado com o tempo).
  • Quadrinhos: A formação original da Liga da Justiça tinha apenas a Mulher-Maravilha — e, na primeira formação nos anos 40, ela foi convidada para ser secretária da equipe. Os Vingadores da Marvel também tiveram apenas uma mulher na formação original: a Vespa.
  • Filmes: Dezenas de exemplos, mas vamos destacar Os Caça-Fantasmas (Jeanine e Dana podem, para alguns, não ser consideradas personagens principais) e Predador (um grupo de homens com uma prisioneira de guerra).

Mesmo em casos mais atuais, onde há mais de uma mulher, elas frequentemente continuam em número muito menor que seus equivalentes masculinos — algo entre 20% e 25% do grupo. Alguns podem argumentar que há séries que invertem essa lógica, com grupos predominantemente femininos e um representante masculino, o que é mais comum em mangás e animes de “garotas mágicas”, como Sailor Moon.

Tira original de Dykes to Watch Out For onde aparece o Teste de Bechdel

📊 O Teste de Bechdel

Outra forma de criticar a redução da importância — ou até mesmo da existência — de personagens femininas é o Teste de Bechdel.

Ele analisa se uma obra de ficção:

  1. Possui pelo menos duas mulheres com nomes (ou seja, com alguma importância real para a história).
  2. Que conversem entre si.
  3. Sobre algo que não seja um homem.

O teste foi apresentado em 1985 pela cartunista norte-americana Alison Bechdel, em sua tira Dykes to Watch Out For. Na própria tira, há um agradecimento à sua amiga Liz Wallace, que deu a ideia. Originalmente apresentado para avaliar filmes, o teste também é aplicado a outras mídias.

É claro que não é um teste perfeito. Um filme com uma visão negativa das mulheres pode apresentar duas com nomes falando sobre outra coisa, enquanto um filme sobre o crescimento de uma mulher pode apresentá-la de forma solitária, percorrendo o país sem contato com outras mulheres — e falhar no teste logo de cara.

Curiosamente, apesar de parecer fácil, poucos filmes conseguem “passar” no teste. Você pode conferir no site Bechdel Test. É claro que alguns filmes têm justificativas lógicas — como WALL-E, que tem poucos personagens humanos na maior parte do tempo. Mas é curioso notar que filmes como Cidade de Deus e O Pianista não passam, enquanto Requiem para um Sonho e O Tigre e o Dragão passam.

Mulher Maravilha convidada a ser Secretaria – DC Comics

🧠 Vamos pensar um pouco…

Tudo isso não é apenas sobre feminismo, mas sobre o controle geral que as mídias exercem sobre a população em múltiplos meios. Ideias, conceitos e até política (indiretamente) podem ser introduzidos de forma subconsciente para a população — e não só do país onde esses materiais são produzidos, mas de boa parte do mundo.

Eu nasci nos anos 70 — 1972, mais especificamente — e fui em grande parte criado sob mídias norte-americanas, onde o “American Way of Life” era mostrado como perfeito. Coisas que inexistiam na minha vida real eram conhecidas e aceitas como normais graças às mesmas mídias.

Um exemplo clássico é o estereótipo da “loira burra” (ou inocente) — uma mulher extremamente bonita, arrumada, loira, que parece não perceber o que acontece ao seu redor ou ter ideias próprias. Sua origem é confusa; uma das versões indica uma cortesã francesa, Rosalie Duthé, conhecida por ser bonita, mas incapaz de manter uma conversa.

Para nós, esse estereótipo vinha de filmes, em geral comédias — como a personagem Lorelei Lee, interpretada por Marilyn Monroe em Os Homens Preferem as Loiras (1953). Curiosamente, apesar de boa parte do filme ela cumprir o estereótipo, tem um discurso muito perspicaz no final. Outras atrizes seguiram o mesmo caminho, como Judy Holliday e Jayne Mansfield.

Capa da Avengers nº 1

Esse tipo de personagem aparece até em animações da Hanna-Barbera. Embora muitos desenhos evitassem a Síndrome de Smurfette — Scooby-Doo tinha 2 homens, 2 mulheres e um cachorro; As Aventuras de Charlie Chan tinham 7 homens, 4 garotas e um cachorro —, ainda assim utilizavam o artifício da personagem feminina frágil ou ingênua. Exemplos incluem Melody (de Josie e as Gatinhas) e Penélope Charmosa (de Os Apuros de Penélope), que é facilmente capturada.

Pense bem: quantas coisas que você acredita, ou pelo menos “sabe”, vieram de produtos de entretenimento — filmes, séries, jogos, etc.?

💭 Conclusão

O mais importante é notar como não só mulheres mas até outros grupos que aparentemente estão representados — podem ter sua importância apagada ou reduzida na história. A representação importa, e muito, principalmente se for coerente com a época e situação da história. A forma como as mídias penetram em nossos lares e moldam nossa visão do mundo é mais profunda do que imaginamos.

Smurfette criada por Peyo.

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